Helena Capriglione Zelic, 1995, São Paulo.

Poemas de Durante um terremoto (Patuá, 2018).

Leitura de trecho da plaquete 3.255km (Nosotros, 2019).


ALGUNS POEMAS SOLTOS

De Durante um terremoto:

enquanto te espero chegar

uma muralha formada de sismos
está, por definição, em constante movimento.

quando não há rota, o trajeto é um olho aberto.
por seus caminhos cruzou a independência
não existe montanha que divida a américa, pensavam,
com um exército de homens comuns;
passaram os povos da terra em busca do sol
quando o poente é contrário ao mar é preciso segurar
cada último pedaço de lugar, com as mãos
investigar o cosmos quando a rosa dos ventos
aponta ao leste, invento de homem nenhum;
rolam as pedras que marcam a neve de agosto
fingem que são pegadas de bichos,
mas os bichos voam, avançam;
um pássaro que se perde, existe?
duzentos ou mais aviões diários
reencontros, lenços, placas no desembarque,
sei de cor suas datas de chegada e partida;
a estrada onde correm famílias
por dias, quilômetros, em buses baratos
porque retornar é preciso, árdua tarefa a de manter
as pessoas porque são nossas,
e alimentar, ver crescer, dar alento.

e pensar que a cordilheira nunca foi incontornável
faz parecer quase fácil a nossa inconclusa viagem.

aula de poesia

na aula de poesia líamos gabriela
desalojada estrangeira, e dor,
disseram que eu era a melhor
para traduzir a palavra saudade.
todos me olhavam curiosos
e as bocas faziam curvas
na sinuosa formação das sílabas.

– a saudade é um imprevisto
que se alarga pelo continente,
poderia dizer
e mostrar tuas fotografias.
sinto falta do calor
mas vejo miragens.
o que veio primeiro, a palavra
ou o mundo?
questionaria ao país sem nome
já sabendo sua resposta. –

mas, desatenta, não soube falar.
pega no flagra trocava contigo
como cartas a doris dana, loucuras
além da contagem dos dias
mensagens secretas,
minúsculos furtos.

cassandra

como um país que não se esquece de seus mortos e seus vivos
como um povo que resguarda a língua anterior às fronteiras
porque são eles mesmos a língua,
a língua é eles
como tua capacidade de amar novas pessoas
e reconhecer cheiros antigos
e querê-los, porque assim respira mais.

como a dura revolta de nossos ossos,
como as multidões que se levantam,
tu tem direito à tua história.

De Constelações:

diagnóstico

de amor não morreremos.
de fome, de droga, de tiro
de dores, cansaço, ciúmes
acidentes e desvios biológicos,
disso tudo morreremos.
de amor não.
o amor não serve para isso
não cria vítimas por aí.
mas confundem tudo
tomam o amor por qualquer coisa
um sopro de domingo
pronto, já insistem ser amor.
até um soco no rosto inventaram
chamar de amor.

mas soco dói,
quebra,
sangra,
entorta,
emudece.
amor não.
amor é mais bonito.

chega das tolices
desse mundo viciado
que gira, gira, gira
faz rotas, translada
e nunca dá passos novos.
o amor nunca matou ninguém

origem

meu sangue
é o sangue do norte
Pará, Piauí
sangue da terra quente
terra da mulher forte.
assim aprendi.
quem quiser que me aguente.

quando eu crescer

quando eu crescer
quero ser
que nem a ana cristina cesar.
quebrar vidraças coloridas
e, no canto final
exposta ao mundo e à avenida da frente
encruzilhada
esconder os segredos das ostras.

De Extintores (em construção):

carta-denúncia

não é você que anda mais dura, meu amor
duro está o mundo.
você me ama mais
me beija menos
a culpa é do mundo
e a culpa do mundo é dos ricos.
dizem que fica feio fazer do poema
um panfleto

mas é preciso dar nome aos bois
walter souza braga
marcelo crivella
para falar de agora

este poema está fincado em um tempo
acontece hoje 15 de março
de 2018
não estamos alegres mas tivemos maiakóvski
parece que nosso dever é perdurar.

parecia que o afeto poderia
nos salvar
lá fora a barbárie aqui dedos mansos
vê essas luzes que invadem o teto?
pela fresta da janela
madrugada, e dão medo
hoje esse feixe é a morte que paira.
eu sei que você tem hora mas
me faz companhia essa noite.

porque não é sua voz, meu amor
que perdeu o acalanto
são as vozes que andamos perdendo.

não é você que anda mais muda, meu amor
são os minutos de silêncio
que antecedem o revide.
você consegue ouvir?
está vindo.

david hume

a anatomia é uma faca de dois gumes
assim foi que aprendi

observar órgãos e complicações
dentro da humanidade
uma desculpa para esganar
bruxas e vice-versa

matar e ver os mortos
abrir a carcaça
libertar o que há de deus e demo
na ciência dos restos.

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